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Banana: flexibilização na União Européia pode estimular exportações brasileiras?
A ampliação das exportações de banana brasileira para a União Européia vinha sendo limitada pela elevada tarifa de 680 euros por tonelada de banana que ultrapassava a quota de 2,2 milhões de toneladas, até dezembro de 2005. Tal política visava privilegiar os países do ACP (África subsariana, das Caraíbas e do Pacífico) e foi contestada na Organização Mundial do Comércio (OMC)1 pelos países latino americanos.
Em 29 de Novembro de 2005, a União Européia adotou um novo regime de importação para o setor das bananas, em que se fixou uma tarifa única (de 176 euros) para países com base no princípio comercial de Nações Mais Favorecidas. A nova política entrou em vigor em 1 de Janeiro de 2006 e inclui, também, uma quota anual de importação de 775 mil toneladas de bananas originárias dos países do ACP livre de tarifas aduaneiras.
A Del Monte, que já investiu US$ 50 milhões no Brasil, está pronta para 'até triplicar' a soma com a viabilização de melhores condições de acesso da fruta na Europa. Nestas condições, também a empresa americana Dole poderá investir no país, assim como plantações de banana Grand Naine na área irrigada da Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (CODEVASF) poderiam tornar-se viáveis e ampliar significativamente a participação brasileira no mercado mundial no decorrer dos próximos anos.
No curto prazo, pode se esperar apenas o redirecionamento de produção destinada ao mercado brasileiro para o europeu. Os dados iniciais da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento (SECEX/MDIC)2 para os dois primeiros meses de 2006 parecem estar indicando isso. Em janeiro e fevereiro deste ano, a exportação brasileira de banana foi 40,8% superior em valor e 26,6% em quantidade, comparados ao mesmo período de 2005. Desses totais, a parcela destinada à União européia evoluiu 59,1% no valor e 55,4% na quantidade, enquanto a parcela enviada ao Mercosul também evoluiu, mas em ritmo inferior (17,3% no valor e 14,9% na quantidade), no mesmo período.
Os países que mais ampliaram o valor de sua importação da fruta brasileira foram Portugal (aumento imensurável), Holanda (mais 358,9%), Alemanha (mais 244,0%) e Reino Unido (mais 93,7%), que, em conjunto, aumentaram sua participação no total de 31,6% para 51,8%. Na contra-mão, a Itália importou menos banana brasileira no período analisado (menos 37,5%) e reduziu sua participação relativa de 25,1% para 11,1%.
Em decorrência do grande aquecimento nestas transações com a Comunidade Européia, a evolução mais lenta das exportações para Argentina e Uruguai proporcionou a redução da importância relativa do Mercosul de 42,5% para 35,4% do valor, embora permaneça amplamente predominante na quantidade (64,3% do total nos primeiros dois meses de 2006). Os preços recebidos pelos exportadores brasileiros foram de aproximadamente US$ 300 (variedade Grand Naine) nas vendas aos países da União Européia e US$ 90 ao Mercosul (tabela 1).
Tabela 01 - Exportações brasileiras de banana, janeiro a fevereiro de 2005 e janeiro a fevereiro de 2006, por país de destino
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País de destino | | | | | | | | | | | |
Reino Unido | 7,80 | 2,38 | 305,50 | 4,14 | 1,23 | 297,28 | 88,51 | 93,72 | 2,76 | 37,21 | 27,05 |
Argentina | 16,88 | 1,52 | 89,88 | 13,65 | 1,14 | 83,49 | 23,64 | 33,10 | 7,65 | 23,71 | 25,08 |
Uruguai | 7,55 | 0,75 | 99,14 | 7,62 | 0,79 | 103,99 | -0,83 | -5,45 | -4,66 | 11,70 | 17,42 |
Itália | 2,43 | 0,71 | 292,63 | 3,89 | 1,14 | 292,78 | -37,49 | -37,53 | -0,05 | 11,13 | 25,08 |
Alemanha | 1,31 | 0,42 | 322,88 | 0,42 | 0,12 | 293,90 | 213,11 | 243,98 | 9,86 | 6,60 | 2,70 |
Holanda | 1,27 | 0,37 | 293,90 | 0,28 | 0,08 | 292,72 | 357,03 | 358,87 | 0,40 | 5,85 | 1,79 |
Portugal | 0,43 | 0,13 | 314,01 | 0,00 | 0,00 | ... | ... | ... | ... | 2,10 | 0,02 |
Sub-total | 37,67 | 6,29 | 167,00 | 29,99 | 4,51 | 150,25 | 25,60 | 39,60 | 11,14 | 98,30 | 99,15 |
Outros | 0,33 | 0,11 | 328,00 | 0,01 | 0,04 | ... | ... | 182,10 | ... | 1,70 | 0,85 |
Total | 38,00 | 6,40 | 168,40 | 30,01 | 4,55 | 151,46 | 26,64 | 40,80 | 11,18 | 100,00 | 100,00 |
Uniao Europeia | 13,57 | 4,11 | 303,09 | 8,73 | 2,58 | 296,08 | 55,42 | 59,10 | 2,37 | 64,25 | 56,86 |
Mercosul | 24,43 | 2,27 | 92,77 | 21,27 | 1,93 | 90,83 | 14,88 | 17,33 | 2,13 | 35,42 | 42,50 |
(...) Dados inexistente ou inexpressivos.
Quanto aos portos de embarque, a participação dos situados no Nordeste brasileiro aumentou de 56,3% nos dois primeiros meses de 2005 para 63,6% no mesmo período de 2006, graças à retomada do uso do porto de Natal (RN), que havia sido substituído pelo de Pecem (CE). A região produtora e exportadora da banana brasileira enviada para a Europa concentra-se no Vale do Açu, Rio Grande do Norte, e fica próxima dos dois importantes portos. Em conseqüência, as saídas rodoviárias pelos portos do Sul (SC e RS) tiveram sua importância reduzida de 43,7% para 36,4% (tabela 2).
Tabela 02 - Exportações brasileiras de banana, janeiro a fevereiro de 2005 e janeiro a fevereiro de 2006, por porto de saída
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Porto | | | | | | | | | | | |
Pecem(CE) - Porto | 12,24 | 3,63 | 296,86 | 8,72 | 2,55 | 292,25 | 40,41 | 42,62 | 1,58 | 56,78 | 56,06 |
Dionísio Cerqueira(SC) | 14,15 | 1,26 | 88,91 | 11,73 | 0,96 | 81,69 | 20,66 | 31,32 | 8,84 | 19,66 | 21,08 |
Natal(RN) - Porto | 1,32 | 0,44 | 329,73 | 0,00 | 0,01 | ... | ... | ... | ... | 6,80 | 0,21 |
Chui (RS) | 2,47 | 0,28 | 115,30 | 2,71 | 0,31 | 114,31 | -9,00 | -8,21 | 0,87 | 4,45 | 6,83 |
Jaguarão(RS) - Rod. | 3,19 | 0,28 | 88,98 | 2,63 | 0,26 | 97,99 | 21,28 | 10,13 | -9,19 | 4,43 | 5,67 |
Uruguaiana(RS) Rod. | 1,95 | 0,19 | 99,47 | 1,15 | 0,11 | 93,93 | 69,03 | 79,00 | 5,89 | 3,03 | 2,39 |
Santana do Livramento(RS) Rod | 1,79 | 0,17 | 97,40 | 2,17 | 0,22 | 100,39 | -17,66 | -20,11 | -2,98 | 2,72 | 4,79 |
Sub-total | 37,11 | 6,26 | 168,81 | 29,11 | 4,41 | 151,47 | 27,46 | 42,06 | 11,45 | 97,88 | 97,01 |
Outros | 0,90 | 0,14 | 151,28 | 0,90 | 0,14 | 151,37 | 0,19 | 0,13 | -0,06 | 2,12 | 2,99 |
Total | 38,00 | 6,40 | 168,40 | 30,01 | 4,55 | 151,46 | 26,64 | 40,80 | 11,18 | 100,00 | 100,00 |
(...) Dados inexistente ou inexpressivos.
Os estados brasileiros que mais ampliaram suas exportações de banana no período analisado foram Ceará (cuja participação aumentou de zero para 4,3% do valor total) e Rio Grande do Norte (aumento de 50,0% que ampliou sua participação relativa de 56,3% para 59,9%). Santa Catarina e São Paulo, que ampliaram suas exportações de banana em ritmo inferior à média nacional, perderam importância relativa para os estados nordestinos, comparados os dois primeiros meses de 2005 e 2006 (tabela 3).
Tabela 03 - Exportações brasileiras de banana, janeiro a fevereiro de 2005 e janeiro a fevereiro de 2006, por estado de origem
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Estado | | | | | | | | | | | |
Rio Grande do Norte | 12,86 | 3,84 | 298,23 | 8,72 | 2,56 | 293,28 | 47,49 | 49,98 | 1,69 | 59,94 | 56,27 |
Santa Catarina | 23,56 | 2,15 | 91,40 | 19,87 | 1,83 | 92,13 | 18,58 | 17,65 | -0,78 | 33,64 | 40,26 |
Ceará | 0,71 | 0,27 | 384,87 | 0,00 | 0,00 | ... | ... | ... | ... | 4,29 | 0,00 |
São Paulo | 0,80 | 0,12 | 153,78 | 0,64 | 0,10 | 149,33 | 25,44 | 29,18 | 2,98 | 1,93 | 2,10 |
Sub-total | 37,93 | 6,39 | 168,37 | 29,23 | 4,48 | 153,40 | 29,80 | 42,47 | 9,76 | 99,80 | 98,63 |
Outros | 0,07 | 0,01 | 183,37 | 0,78 | 0,06 | 79,21 | -91,14 | -79,48 | 131,50 | 0,20 | 1,37 |
Total | 38,00 | 6,40 | 168,40 | 30,01 | 4,55 | 151,46 | 26,64 | 40,80 | 11,18 | 100,00 | 100,00 |
(...) Dados inexistente ou inexpressivos.
As autoridades da Comunidade Européia estabeleceram o período de janeiro a março de 2006 para analisar o comportamento do mercado de banana diante das novas regras para então confirmá-las ou proceder a alterações. Consolidadas as perspectivas mais favoráveis à exportação da fruta brasileira, é de se esperar a ampliação dos negócios a partir de plantios já feitos no Vale do São Francisco, da expansão da produção da Del Monte e de investimentos da Dole, proporcionando ao Brasil uma participação no mercado internacional mais compatível com o seu importante papel como produtor e consumidor de banana. 3
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1 OMC: www.wto.org
2 Secretaria de Comércio Exterior (SECEX)/Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), 2004: http://www.mdic.gov.br
3 Artigo registrado no CCTC-IEA sob número HP-26/2006.
Data de Publicação: 17/03/2006
Autor(es): Luis Henrique Perez Consulte outros textos deste autor